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Veículo: Veja Rio
Uma rede com sabor carioca Cristina Grillo e Fernanda Thedim
Os freqüentadores da loja de Ipanema já sabem. Todos os dias, do meio-dia às 4 da tarde, a mesa redonda de cinco lugares no fundo do salão tem dono. Ou melhor, donos. É nela que se reúne um grupo eclético de habitués numa espécie de almoço-revezamento exclusivamente masculino. Em média, passam pela tal mesa vinte pessoas por dia. Tem de tudo: banqueiro, publicitário, lutador de jiu-jítsu, músico, professor de filosofia, dono de shopping. "É a mesa de maior rotatividade do restaurante. A única regra que temos é não falar de política, religião ou futebol, assuntos que sempre dão briga", conta o publicitário Rui Rodrigues, que todos os dias sai do Humaitá para o almoço na Rua Aníbal de Mendonça. A mesa ao lado também tem uma freqüentadora assídua. Por volta das 2 da tarde, ela é ocupada por uma senhora de cabeça bem branquinha e olhos muito azuis. Passa as duas horas seguintes divertindo-se com as conversas dos vizinhos. "Às vezes saem algumas barbaridades, e eu me preocupo com o que ela possa ter ouvido", comenta Pedro de Lamare, um dos donos do lugar e também um dos freqüentadores da mesa.
O hobby do patriarca começou a virar negócio quando Fernando, um engenheiro químico que havia ocupado altos cargos em grandes empresas e órgãos do governo, se aposentou. "Ele ficou jururu, e dois amigos, o Cláudio Bernardes e o Pedro Salgado, sugeriram abrir uma loja para vender comidinhas, uma gourmandise. Assim ele se ocuparia com uma coisa que gostava de fazer." A primeira loja surgiu na Rita Ludolf, no Leblon. Mínima, tinha só o balcão e cinco mesinhas de apoio. A idéia era que as pessoas comprassem os produtos e levassem para casa, mas os clientes acabavam ficando, batendo papo com Fernandão, que circulava entre a cozinha e o balcão. Na cozinha, ele preparava pratos como carne assada com massa e rolê de peixe com molho branco. O caseiro da família em Petrópolis fazia as sobremesas: doces de coco, de batata-roxa, e outras receitas caseiras. A pequena gourmandise foi ganhando ares de restaurante, enquanto a clientela ia se tornando assídua e a rede se expandia. Primeiro veio a filial da Rua Senador Dantas, no Centro. Depois, o requintado restaurante instalado no hotel Marina. A seguir, Ipanema, Barra, mais uma no Centro, Gávea, São Conrado, outra na Barra, Jardim Botânico e Botafogo.
A chef Nanda de Lamare (à esq.), na cozinha da recém-inaugurada filial de Botafogo, segue a tradição familiar iniciada nos fartos almoços que o avô, Fernando (à dir.), preparava para os amigos na casa da família em Angra
"Lembro do vovô, já velhinho, sentado numa cadeira na saída da cozinha da loja de Ipanema batendo nas pernas dos garçons com a bengala para ver se os pratos estavam bem preparados", conta Fernanda, que diz ter aprendido com ele a prestar atenção não só na saída do prato, mas no retorno. "Ele dizia que o que voltava mostrava se o prato tinha sido bem aceito ou não. Se a peça principal era consumida, mas sobrava acompanhamento, tinha algo errado", relembra. Nanda, como é chamada, segue a linha da sofisticação, sem deixar de lado a tradição. Em janeiro, a rede lança novo cardápio, elaborado sob sua supervisão. As batatas assadas continuam lá, mas terão variedade maior de recheios. Na salada de batata frita, o item mais vendido do cardápio, não se mexe, mas haverá o acréscimo de saladas com grãos de soja, cevadinha e atum. O grande investimento virá nas sugestões diárias. "Outro dia servimos uma truta com molho teriyaki e shiitake grelhado. Foi um sucesso", conta. A clientela de Nanda entende do riscado. O chef Felipe Bronze, que produz receitas para lá de ousadas no Z Contemporâneo, é fã da rede. "Pelo menos, cinco vezes por semana vou ao Gula de Ipanema", revela. "É a melhor opção de comida simples, bem-feita e a bom preço", diz ele, freqüentador da famosa mesa redonda de Ipanema. "Quando estou estressado com o trabalho, vou à praia, malhar ou então almoçar lá no Gula", conta.
Felipe Bronze gosta de contar a resposta que Jiló, garçom da loja de Ipanema e um dos mais antigos entre os 560 funcionários da rede, tem na ponta da língua para os clientes que reclamam se a comida demora. "Se está demorando é porque estão caprichando." Mas nada se compara à história contada pelo publicitário Rui Rodrigues. Há alguns anos ele começou a implicar que a fatia de abacaxi servida na sobremesa para o amigo Fernando Furtado, outro habitué da tal mesa de Ipanema, era sempre maior e mais suculenta que a sua. A questão foi resolvida assim: os dois pedem a sobremesa e, quando as fatias chegam à mesa, são divididas meio a meio. Rui come uma das metades que veio para Fernando; Fernando, uma das metades servidas para Rui. Coisas do Gula Gula.
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